
Menos negócios, mais dinheiro: o retrato do M&A brasileiro em 2026
O mercado brasileiro de fusões e aquisições fechou o primeiro semestre de 2026 com 593 transações, uma queda de cerca de 35% em relação ao mesmo período de 2025. Ainda assim, o valor agregado dessas operações avançou 15%, para US$ 32,557 bilhões, segundo levantamento da Aon em parceria com a TTR Data e a Datasite, publicado pela Exame.
O contraste entre menos operações e mais capital não é um detalhe estatístico. Ele descreve uma mudança de comportamento entre compradores, fundos e conselhos de administração, que passaram a concentrar recursos em ativos considerados estratégicos, em vez de pulverizar investimentos em um volume maior de transações menores.
Para o CFO ou o diretor responsável por M&A em uma empresa de médio ou grande porte, esse dado muda a leitura do próprio mercado. Não se trata de um ano fraco para fusões e aquisições, e sim de um ano seletivo, em que cada operação anunciada tende a carregar mais peso estratégico do que em ciclos anteriores.
Os números do semestre, em detalhe
André Nogueira, líder de M&A and Transaction Solutions para o Brasil na Aon, resume o cenário como um mercado “mais seletivo, porém concentrado em operações de maior porte, o que contribuiu para o aumento do capital mobilizado mesmo diante da redução no número de transações”, segundo declaração à Exame.
O mercado tradicional de fusões e aquisições liderou o volume financeiro, com 297 transações somando US$ 20,333 bilhões. Na sequência vieram as aquisições de ativos, com 151 operações e US$ 4,424 bilhões, e o venture capital, com 106 rodadas e US$ 1,272 bilhão movimentados.
Private equity dobra de tamanho
O destaque proporcional do semestre foi o private equity. Segundo a Economic News Brasil, essa modalidade liderou o crescimento em volume financeiro, com 41 operações que somaram R$ 33,2 bilhões, mais que o dobro do registrado no primeiro semestre de 2025. Já o venture capital, apesar de mais pulverizado, manteve tíquetes bem menores: 106 rodadas somando R$ 6,5 bilhões.
Essa diferença de escala entre as duas modalidades reforça o mesmo padrão observado no mercado como um todo: o capital está mais concentrado, e os investidores estão dispostos a pagar mais por ativos com previsibilidade de receita e posição consolidada no setor.
Os setores que concentram o apetite dos investidores
Tecnologia e serviços digitais lideraram em número de operações, com 104 transações, mesmo com uma queda de 39% em relação ao primeiro semestre de 2025. O resultado indica que o setor segue relevante, mas com menos negócios do que no ciclo anterior de maior liquidez.
O mercado imobiliário apareceu na sequência, com 98 operações e alta de 17% em volume na comparação anual. Bancos e investimentos tiveram o movimento inverso, com retração de 52% no número de transações, o que sugere um setor mais cauteloso diante do cenário de juros e do calendário eleitoral.
- Tecnologia e serviços digitais: 104 operações, queda de 39% na comparação anual;
- Imobiliário: 98 operações, alta de 17%;
- Serviços profissionais: 37 operações;
- Bancos e investimentos: 31 operações, retração de 52%.
As operações que marcaram o semestre
Entre as maiores transações do período, uma operação não identificada de US$ 6,316 bilhões, assessorada por Citigroup e J.P. Morgan, aparece no topo do ranking de assessores financeiros, ainda que o relatório não revele o nome comercial do negócio. Entre as operações identificadas, destacam-se:
- Serra Verde Pesquisa e Mineração, única mineradora de terras raras do Brasil, adquirida pela americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões;
- Raízen Argentina, com investimento da brasileira Raízen na aquisição de ativos argentinos, no valor de US$ 1,42 bilhão;
- FS Bioenergia, empresa de biocombustíveis, adquirida pela Amaggi por aproximadamente US$ 1 bilhão;
- V.tal, com aquisição pela BGc Fibra Participações de ativos vendidos pela Oi, no valor de R$ 4,5 bilhões;
- EDP Renováveis Brasil, adquirida pela EDP Brasil por R$ 4,1 bilhões;
- Corredor Logística e Infraestrutura, maior operação pura de private equity do semestre depois da Serra Verde, com aporte de R$ 2,514 bilhões.
Fora desse ranking por valor, dois negócios concluídos chamam atenção pelo tipo de movimento que representam. A TIM concluiu, em maio, a compra dos 51% restantes da I-Systems, assumindo o controle integral da empresa de infraestrutura de fibra óptica por R$ 947 milhões. No mesmo mês, a Petrobras concluiu a aquisição de 49,99% das subsidiárias brasileiras da Lightsource bp, formando uma joint venture voltada a projetos de energia solar e armazenamento, conforme registrou a Economic News Brasil.
Capital estrangeiro segue ativo, mas mais seletivo
Investidores internacionais anunciaram 155 aquisições de empresas brasileiras no semestre, movimentando R$ 58,7 bilhões. Os Estados Unidos lideraram esse fluxo, com 64 operações e R$ 20,4 bilhões em valor agregado, segundo a Economic News Brasil.
Apesar desse volume relevante, Nogueira alerta que o cenário eleitoral no Brasil aumenta a cautela de compradores internacionais. “Esse ambiente de maior incerteza tende a afetar o apetite por riscos no curto prazo, especialmente em transações mais sensíveis”, afirma o executivo da Aon à Exame. Para o CFO que planeja atrair um comprador estrangeiro, isso significa que due diligence bem preparada e governança transparente pesam mais do que em ciclos de liquidez abundante.
O panorama regional confirma a tendência
A seletividade não é exclusividade brasileira. A América Latina como um todo registrou 1.062 transações no semestre, queda de aproximadamente 30% na comparação anual, com valor agregado praticamente estável, em US$ 49,107 bilhões. O Brasil liderou o ranking regional em número de operações, à frente de Chile, Argentina e México.
Pedro da Costa, head de M&A and Transaction Solutions para a América Latina na Aon, descreve o momento regional como uma combinação de “operações lideradas por fundos de private equity, investidores estratégicos e atores locais, muitas vezes sob estruturas que buscam equilibrar risco e retorno em contextos ainda voláteis”, segundo a mesma reportagem da Exame.
O que essa seletividade significa na prática
Um mercado que faz menos negócios, mas de maior valor, muda o comportamento esperado tanto de quem vende quanto de quem compra. Companhias que consideram uma venda parcial ou total precisam entender que o comprador de 2026 está disposto a pagar um prêmio por previsibilidade, mas também está mais rigoroso na avaliação de riscos jurídicos, fiscais e de governança antes de fechar o negócio.
Do outro lado, empresas com caixa disponível para aquisições encontram um cenário com menos concorrência por ativos de qualidade, já que parte dos compradores recuou diante da incerteza eleitoral e do custo de capital ainda elevado. Isso pode representar uma janela de oportunidade para grupos com fôlego financeiro e tese de aquisição bem definida.
Há também um efeito direto sobre o tempo de maturação de cada operação. Quando o comprador avalia menos negócios, mas com mais rigor, o intervalo entre a assinatura de um memorando de entendimento e o fechamento tende a se alongar, porque a due diligence se torna mais profunda e a negociação de garantias contratuais, mais detalhada. Empresas que entram nesse processo sem organização prévia de dados fiscais e societários correm o risco de ver a negociação esfriar antes de chegar ao contrato definitivo.
A dimensão fiscal que costuma decidir o valor final
Em um mercado que paga prêmio por previsibilidade, contingências tributárias não identificadas ou mal quantificadas tendem a ser descontadas do valor da operação, ou usadas como argumento para cláusulas de retenção e indenização mais rígidas. Isso vale tanto para passivos de tributos federais quanto para discussões estaduais e municipais que muitas vezes não aparecem nos primeiros relatórios financeiros apresentados ao comprador.
O inverso também é verdadeiro: empresas que chegam à mesa de negociação com a exposição fiscal mapeada e eventuais créditos tributários já identificados tendem a justificar com mais facilidade o múltiplo pretendido, porque reduzem a margem de incerteza que o comprador precisaria precificar como risco.
Checklist para o CFO e o diretor de M&A
- revisar a tese de aquisição ou desinvestimento da empresa à luz de um mercado que premia ativos estratégicos e previsibilidade de receita, não volume de transações;
- antecipar a due diligence fiscal, jurídica e contábil antes de iniciar qualquer processo de venda, já que compradores mais seletivos tendem a descontar o valor de negócios com pendências não mapeadas;
- mapear o apetite específico do setor da empresa, considerando que tecnologia, imobiliário e ativos ligados à transição energética concentraram o interesse dos investidores no semestre;
- avaliar se a empresa tem porte e governança para atrair capital estrangeiro, dado que investidores internacionais seguem ativos, mas mais cautelosos diante do calendário eleitoral;
- considerar estruturas de private equity ou aquisição de participação minoritária como alternativa a uma venda integral, aproveitando o apetite comprovado dessa modalidade no semestre;
- revisar o cronograma interno de decisão, já que operações mais complexas e mais bem avaliadas tendem a levar mais tempo entre a primeira conversa e o fechamento.
Um mercado que recompensa preparo, não pressa
Os números do primeiro semestre de 2026 mostram um mercado de M&A brasileiro maduro o suficiente para atrair capital relevante mesmo em um ano de menos transações. A queda no volume de negócios não é sinal de desinteresse, é sinal de critério. Compradores estão dispostos a pagar mais, desde que o ativo justifique o prêmio com dados sólidos, governança clara e uma tese de crescimento defensável.
Empresas que tratam M&A como um evento pontual, acionado apenas quando surge uma oferta, tendem a chegar a esse tipo de negociação em desvantagem em relação a companhias que mantêm due diligence, estrutura societária e informação financeira organizadas de forma contínua.
O Grupo Studio apoia empresas na preparação fiscal e jurídica para processos de fusão, aquisição ou captação de investimento, revisando contingências, estrutura societária e exposição tributária antes que essas questões apareçam na mesa de negociação de um comprador mais seletivo. Se sua empresa está avaliando uma operação nos próximos meses, este é o momento de organizar essa base, não depois que a proposta chegar.