O dólar segue em trajetória de queda, pressionado por incertezas econômicas globais e sinais de desaceleração nos Estados Unidos. Para Jan Hatzius, economista-chefe do Goldman Sachs, a moeda norte-americana ainda tem espaço significativo para recuar nos próximos meses, refletindo mudanças no cenário macroeconômico e nas percepções dos investidores sobre ativos dos EUA.
Somente em abril, a moeda recuou mais de 4,5%, marcando a maior queda mensal desde o final de 2022. A forte desvalorização despertou preocupações no mercado, levantando dúvidas sobre a confiança global na principal moeda de reserva do mundo. Em 2025, a moeda já acumula perda superior a 8% frente a uma cesta de moedas fortes, incluindo o euro, a libra esterlina e o iene.
Segundo Hatzius, a combinação entre tarifas mais altas, expectativas de cortes nas taxas de juros e o temor de uma recessão iminente nos Estados Unidos contribui diretamente para o enfraquecimento do dólar. Em artigo publicado no Financial Times, ele argumenta que, embora o câmbio seja notoriamente difícil de prever, o contexto atual sugere uma tendência clara de desvalorização.
“Frequentemente evito fazer previsões sobre o dólar”, escreveu Hatzius. “Existe uma vasta literatura acadêmica — além da minha própria experiência — indicando que prever taxas de câmbio é ainda mais desafiador do que projetar crescimento econômico, inflação ou juros. No entanto, com certa humildade, acredito que a recente queda do dólar, de cerca de 5% em termos ponderados pelo comércio, ainda está longe do fim.”
Como a queda da moeda americana pode impactar a economia global
A desvalorização do dólar, embora possa sinalizar um enfraquecimento da confiança nos ativos norte-americanos, têm efeitos econômicos relevantes. Por um lado, torna as exportações dos Estados Unidos mais competitivas no mercado internacional, o que pode contribuir para a redução do déficit comercial. Por outro, a moeda mais fraca tende a pressionar os preços domésticos, especialmente em um contexto de tarifas elevadas e inflação persistente.
Hatzius observa que, mesmo que o dólar continue caindo, isso não significa, necessariamente, a perda de sua função como principal moeda de reserva global. “A menos que ocorram choques extremos, acreditamos que as vantagens estruturais do dólar como meio de troca internacional e reserva de valor são sólidas demais para serem facilmente substituídas por outras moedas”, pontuou o economista.
Ainda assim, ele destaca que os fatores que impulsionam a queda do dólar — como a redução no apetite global por ativos denominados em dólar — devem ser monitorados com atenção. A aversão ao risco e a busca por mercados emergentes ou alternativas como o ouro e as criptomoedas refletem uma mudança na dinâmica global de investimentos.
Dólar e política monetária: uma relação delicada
O comportamento do dólar também está diretamente ligado à condução da política monetária pelo Federal Reserve (Fed). Com a possibilidade de cortes nas taxas de juros a partir do segundo semestre, investidores já precificam um dólar mais fraco, à medida que o diferencial de juros com outras economias tende a se reduzir.
Esse movimento pode trazer implicações importantes para países emergentes, inclusive o Brasil, que se beneficiam de um dólar mais barato para controlar pressões inflacionárias e manter o fluxo de capitais. Por outro lado, para os Estados Unidos, um dólar desvalorizado pode ser uma ferramenta de estímulo econômico — desde que não comprometa a credibilidade da moeda.
Em um cenário global cada vez mais incerto, o futuro do dólar permanece como uma das principais variáveis econômicas a serem acompanhadas. A análise de Hatzius reforça que, embora desvalorizações pontuais não comprometam o papel central da moeda, elas refletem transformações profundas nas estratégias de política econômica e nos fluxos financeiros internacionais.
Fonte: Reuters e Money Times.
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