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BESS: segurança, economia e autonomia na conta de energia

  • julho | 2026

O preço da energia deixou de ser previsível

O preço médio da energia no mercado livre subiu de forma acentuada nos últimos dois anos. O PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) médio passou de R$ 129 por MWh em 2024 para R$ 236 por MWh em 2026, alta de 84%, segundo levantamento da Abraceel reproduzido pelo portal eixos. Contratos de longo prazo subiram 59% no período, e os de entrega em três meses, os mais sensíveis à volatilidade de curto prazo, subiram 121%, saindo de R$ 143 para R$ 317 por MWh.

Para o submercado Sudeste/Centro-Oeste, onde está concentrada boa parte da indústria e do comércio de grande porte do país, a projeção é de que o preço médio do ano fique perto de R$ 355 por MWh, com picos de R$ 400 por MWh em meses críticos, conforme análise do O Setor Elétrico.

Enquanto o custo de comprar energia sobe, a rede que entrega essa energia continua vulnerável. Um temporal em dezembro de 2025 na Grande São Paulo deixou a Enel reconhecer, um mês depois, que mais de 4,4 milhões de clientes foram afetados, segundo a Agência Brasil. O prejuízo para comércio e serviços na região, só entre 10 e 14 de dezembro, superou R$ 2,1 bilhões, conforme apurou o Canal Solar, reportagem que já associa o episódio a um salto na procura por sistemas de armazenamento de energia entre empresas da região.

Energia mais cara e rede mais instável formam a combinação que está levando CFOs e diretores de operação a olhar para o BESS (Battery Energy Storage System, ou sistema de armazenamento de energia com baterias) não como equipamento de nicho, mas como ativo financeiro e operacional.

O que muda quando a empresa passa a armazenar a própria energia

O BESS é, em termos simples, um conjunto de baterias de grande porte conectado à instalação elétrica da empresa, capaz de armazenar energia em um momento e devolvê-la em outro. Essa energia pode vir da rede da distribuidora, de uma usina solar ou eólica própria, ou de ambas as fontes combinadas.

A diferença em relação a um gerador a diesel tradicional é estrutural. O gerador entra em ação apenas quando falta energia, sem nenhum benefício no dia a dia normal da operação. O BESS trabalha todos os dias, mesmo sem nenhuma interrupção no fornecimento, porque sua função vai além do backup: ele desloca no tempo o consumo de energia, aproveitando o momento em que ela custa menos para suprir o momento em que ela custa mais.

Essa característica é o que transforma o BESS em decisão financeira, e não apenas em item de infraestrutura elétrica.

Segurança: menos exposição a quedas e apagões

A função mais intuitiva do BESS é a de backup. Em caso de interrupção da rede, o sistema assume o fornecimento de forma instantânea, sem a interrupção de alguns segundos ou minutos que geradores convencionais costumam ter até entrarem em operação plena.

Para operações que não toleram interrupção, como linhas de produção contínua, centros de dados, frigoríficos, hospitais e redes de varejo com sistemas de pagamento e estoque integrados, esses segundos fazem diferença direta em perda de produto, retrabalho e receita não realizada.

O episódio de dezembro de 2025 em São Paulo é didático nesse ponto. Mais de 600 mil estabelecimentos comerciais ficaram sem energia por dias, segundo a Consumidor Moderno, e o setor de serviços concentrou R$ 1,4 bilhão dos R$ 2,1 bilhões em prejuízo. Empresas com BESS dimensionado para cobrir a operação crítica atravessariam o mesmo evento sem parar.

Onde a segurança pesa mais na decisão

  • operações com processo produtivo contínuo, em que uma interrupção gera perda de lote ou de matéria-prima;
  • ambientes que dependem de refrigeração constante, como frigoríficos, farmacêuticas e distribuição de alimentos;
  • centros de dados e operações de tecnologia, em que a tolerância a interrupção é medida em segundos;
  • redes de varejo e serviços com faturamento diário relevante e dependência de sistemas eletrônicos de venda;
  • unidades em regiões historicamente mais expostas a instabilidade da rede de distribuição.

Economia: um mecanismo de proteção contra a volatilidade do mercado livre

O ganho financeiro do BESS vem, principalmente, de três mecanismos que operam ao mesmo tempo.

O primeiro é o deslocamento de consumo, também chamado de peak shaving. A empresa carrega as baterias nos horários em que a energia é mais barata e passa a consumir dessas baterias nos horários de maior tarifa ou de maior demanda registrada, reduzindo o valor pago tanto pela energia consumida quanto pela demanda contratada junto à distribuidora.

O segundo é a arbitragem de preço no próprio mercado livre. Com a diferença entre o preço da energia em horários de sobra e em horários de escassez cada vez maior, como mostram os números do PLD, a empresa que consegue armazenar energia comprada barata e evitar a compra no momento caro captura essa diferença diretamente no resultado.

O terceiro é a redução de exposição a contratos de curto prazo. Como demonstrado pelos dados da Abraceel, contratos com entrega em três meses subiram 121% em dois anos, justamente o tipo de contratação a que empresas recorrem quando são pegas de surpresa por um pico de consumo ou por um contrato de longo prazo mal dimensionado. Um BESS bem dimensionado reduz a necessidade dessas compras emergenciais.

Como esse ganho aparece no fluxo de caixa

Para dimensionar o efeito, considere uma indústria de médio porte com demanda contratada de 2 MW, que hoje paga tarifa de ponta em torno de três vezes a tarifa fora de ponta. Deslocar parte relevante do consumo do horário de ponta para o de baixa tarifa, usando energia previamente armazenada, reduz tanto a conta de consumo quanto o valor de demanda contratada necessário, dois itens que juntos costumam representar a maior parte da fatura de energia de uma operação industrial.

O retorno não depende de um evento excepcional, como um apagão. Ele se repete todos os dias em que existe diferença de preço entre os horários de carga e descarga, o que torna o investimento mais previsível de avaliar do que o de um gerador, cujo retorno depende da frequência de interrupções, sempre incerta.

Autonomia: menos dependência da distribuidora, mais controle sobre o próprio consumo

Quando o BESS é combinado com geração própria, solar ou eólica, o efeito de autonomia se amplia. A empresa passa a decidir quando consumir a energia que gerou, em vez de depender do horário em que o sol ou o vento estão disponíveis. Isso reduz a dependência da rede da distribuidora e do preço praticado no mercado livre no momento exato da necessidade.

Essa autonomia tem valor estratégico além do financeiro. Empresas com metas de sustentabilidade, compromissos com clientes sobre continuidade operacional, ou operações em regiões com histórico de instabilidade na rede, ganham um grau de controle sobre seu próprio suprimento de energia que nenhum contrato de fornecimento, por mais bem negociado que seja, consegue oferecer sozinho.

O momento regulatório está acelerando essa decisão

O mercado de armazenamento no Brasil saiu de um estágio incipiente para um ponto de inflexão em pouco tempo. O valor comercializado em baterias passou de aproximadamente R$ 700 milhões em 2024 para mais de R$ 2,2 bilhões em 2025, mais de três vezes o volume do ano anterior, segundo análise da WTW.

Parte desse crescimento tem origem regulatória. O governo já confirmou a realização do primeiro leilão dedicado exclusivamente a sistemas de armazenamento em baterias, previsto para dezembro de 2026, com demanda estimada em pelo menos 2 GW de capacidade, conforme acompanha a Agência iNFRA. A ANEEL discute nas próximas reuniões de diretoria as regras desse edital, o que deve destravar ainda mais contratação privada em paralelo ao movimento do setor regulado.

Projeções de mercado indicam que o Brasil pode sair de menos de 0,5 GW de capacidade instalada em armazenamento hoje para uma faixa entre 5 e 15 GW até 2030, de acordo com dados reunidos pelo portal ekko green. Para quem decide investir agora, isso significa negociar em um mercado ainda em formação, antes que a demanda represada pelo leilão de dezembro pressione preço e prazo de entrega de equipamentos.

Quem já deveria estar avaliando o BESS

Nem toda empresa tem o mesmo grau de urgência para investir em armazenamento, mas alguns perfis concentram o retorno mais rápido:

  1. indústrias com demanda contratada elevada e diferença relevante entre tarifa de ponta e fora de ponta;
  2. empresas que compram energia no mercado livre e sentem diretamente a volatilidade do PLD na apuração mensal de custo;
  3. operações com geração solar ou eólica própria que hoje desperdiçam parte da energia gerada fora do horário de consumo;
  4. negócios em regiões com histórico de interrupção de fornecimento, em que o custo de parar supera o custo de armazenar;
  5. empresas com contratos de longo prazo vencendo nos próximos dois ou três anos, momento ideal para redesenhar a estratégia de suprimento incluindo armazenamento.

Checklist antes de avaliar o investimento

Antes de contratar um projeto de BESS, vale reunir um diagnóstico mínimo que evita dimensionamento incorreto e prazo de retorno mal calculado:

  • levantar a curva de consumo horária da operação nos últimos 12 meses, identificando picos de demanda e horários de menor custo;
  • quantificar quanto a empresa já pagou em multas por ultrapassagem de demanda contratada ou em contratos emergenciais de curto prazo;
  • mapear o histórico de interrupções de fornecimento na unidade e o custo estimado de cada hora parada;
  • avaliar se existe geração própria, solar ou eólica, que hoje não é aproveitada de forma integral por falta de sincronia com o horário de consumo;
  • simular o retorno financeiro considerando peak shaving, arbitragem e redução de demanda contratada de forma conjunta, não isolada;
  • verificar o prazo de entrega de equipamento junto a fornecedores, considerando a pressão de demanda esperada com o leilão de dezembro de 2026.

Armazenamento deixou de ser opcional para quem depende de energia previsível

O BESS reúne, em um único investimento, três respostas para um mesmo problema: a rede elétrica brasileira segue vulnerável a interrupções, o preço da energia no mercado livre subiu de forma consistente nos últimos dois anos, e o mercado de armazenamento está em um ponto de crescimento acelerado que tende a mudar a relação de preço e prazo nos próximos ciclos de contratação.

Para o CFO ou o diretor de operações que já sente esse custo na fatura mensal ou já parou a produção por causa de uma interrupção de rede, a pergunta deixou de ser se vale a pena avaliar o armazenamento de energia. É quando fazer esse diagnóstico, antes que o próximo pico de PLD ou a próxima interrupção de fornecimento tornem essa decisão ainda mais cara.

O Grupo Studio apoia empresas no diagnóstico de viabilidade de projetos de armazenamento de energia, incluindo o dimensionamento técnico e financeiro do BESS, a análise de retorno frente ao perfil de consumo da operação e a estruturação da contratação junto a fornecedores e ao mercado livre. Se sua empresa ainda não mediu quanto perde hoje entre volatilidade de preço e risco de interrupção, esse é o momento de fazer essa conta.

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