Greve dos caminhoneiros prejudica pequenas empresas

Elas representam 98% dos negócios no país – e veem clientes e estoques minguarem. Restam poucos dias de operação para muitas PMEs

São Paulo – “Acabou com tudo. Já não tem uma alma no shopping”, resume o empreendedor Antonio Augusto de Souza. Responsável pela marca de hamburguerias Johnny Rockets no Brasil, ele viu o movimento cair pela metade nas 18 unidades da rede no último fim de semana. O motivo? A greve dos caminhoneiros, que tomou o país nos últimos dias.

Já são conhecidos os prejuízos que a greve trouxe para grandes empresas. Apenas no varejo alimentar, 167 fábricas do segmento estão sem funcionarSupermercados também enfrentam problemas de abastecimento. Porém, o problema é ainda mais perceptível em negócios que não trabalham com grandes margens financeiras: as micro e pequenas empresas.

Elas representam, simplesmente, 98% do total de negócios do país. Tais empreendimentos, que geram 52% dos empregos em território nacional, enfrentam há dias problemas no estoque e no número de vendas. Em último caso, essa situação irá gerar a falta de pagamentos aos fornecedores e aos funcionários – criando um ciclo vicioso da desaceleração econômica no país.

No caso da Johnny Rockets, os clientes não possuem gasolina para chegar aos shopping centers, locais onde se instalam as hamburguerias. A marca está com bom estoque por conta da preparação para o Dia Mundial do Hambúrguer, que ocorreu ontem (28). Mas os produtos só durarão até amanhã (30).

A marca busca alternativas. Adquire produtos homologados pela franqueadora nos supermercados, como queijo e refrigerantes, ainda que o custo seja maior. Mas a falta de hortifrútis nos estabelecimentos de compra já começa a pesar.

O golpe final será se o estoque de hambúrguer faltar – produto que a franqueadora não permite que seja comprado em outras redes e que possui alguns dias de giro. Mesmo que a situação se resolva em breve, os fornecedores da Johnny Rockets afirmam que a normalização das entregas só acontecerá em 72 horas.

“Acho que começa a entrar em colapso na quarta-feira. Se a greve continuar até sexta-feira ou sábado, não teremos nada para oferecer. É uma situação realmente muito, muito preocupante. A gente está apavorado”, afirma Souza. “O ciclo do negócio foi alterado. São dias que você deixa de ter vendas e isso afeta o caixa da empresa. Em uma rede conseguimos negociar preços, mas tenho amigos com uma só unidade que estão pagando 10, 15 vezes o preço original dos produtos.”

Uma situação similar de estoque e vendas é relatada pelo empreendedor Gabriel Fullen, dos restaurantes-bares Biri Nait, MéZ e Oguro. Nos dois últimos, que focam mais nos pratos, a baixa no fluxo foi de 35% no último fim de semana.

Pressentindo o pior, Fullen comprou destilados na semana passada. Porém, as importadoras de vinhos enfrentam problemas de logística e o empreendedor está contatando empreendimentos menores para manter o estoque. A parte de bar consegue segurar suas pontas – mas a cozinha enfrenta problemas maiores.

“Começamos a sentir a falta de abastecimento, especialmente com carnes e hortifrúti. Tivemos também problemas na locomoção dos funcionários. Tínhamos metade da equipe na cozinha ontem, e a falta de gasolina afetou a chegada dos clientes. Tivemos metade do nosso movimento”, conta Fullen.

Como estratégia, os restaurantes estão divulgando cardápios “especiais”, feitos apenas com os produtos disponíveis. Assim que o cliente chega aos locais, é informado sobre a falta de alguns pratos comuns. O impacto maior ocorre no almoço, quando o pedido de bebidas é menor e a dependência das comidas aumenta.

A salvação de Fullen tem sido o Oguro, único dos seus restaurantes que opera com delivery. “Contando que, claro, os aplicativos de entrega tenham combustível para operarem.”

Situação pelo Brasil

De acordo com comunicado do Sebrae, serviço de apoio às micro e pequenas empresas, o impacto da greve de caminhoneiros tende a ser maior nas micro e pequenas empresas localizadas em cidades com mais de 100 mil habitantes.

“Há uma prática de se trabalhar com poucos estoques nas atividades econômicas realizadas nas grandes cidades, ao passo que, nas cidades menores, é comum trabalhar com estoques um pouco maiores”, escreve o Sebrae.

A instituição afirma que os negócios mais prejudicados pela greve de caminhoneiros são comércio e produção de alimentos perecíveis, como hortifrutigranjeiros; indústrias que dependem de matérias-primas distantes; postos de combustíveis; transporte de pessoas e cargas; turismo; e o setor de comércio e serviços como um todo, pela dificuldade de locomoção do consumidor e do prestador, respectivamente.

A situação não está melhor no e-commerce. De acordo com pesquisa exclusiva a EXAME realizada ontem pela plataforma de e-commerce Loja Integrada, que entrevistou 448 lojistas virtuais por todo Brasil, 82,1% dos lojistas virtuais já foram impactados negativamente pela greve e 71,9% afirmam que as paralisações estão afetando diretamente a entrega dos produtos para os consumidores finais.

Cerca de 23,8% dos lojistas já tiveram cancelamento de seus pedidos e os estados que mais foram afetados pela greve até o momento foram São Paulo (48,1%), Paraná (10,8%) e Minas Gerais (9,7%). A Ebit, referência em informações sobre o comércio eletrônico brasileiro, reduziu de 20,7% para 13,3% a expectativa de crescimento para o setor no mês de maio. A expectativa inicial era de um faturamento de 4,58 bilhões de reais, que foi reduzido para 4,30 bilhões de reais.

Mesmo assim, o Sebrae destacou pontos positivos da paralisação para o empreendedorismo em longo prazo. Segundo a instituição, a greve levanta necessidades como as de rever o peso dos impostos nos produtos e serviços e de estratégias para estoque de produtos estratégicos.

Com informações via EXAME.



Redação Grupo Studio

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